Sep 05 2008
Reinventar a Democracia
Só votei duas vezes na minha vida, aos 18 e 22 anos, a partir daí decidi que nunca mais votaria em ninguém. Todos os políticos, tanto de esquerda como da direita, me pareciam, e ainda me parecem, ligados a redes de interesses que pouco tem a ver com os verdadeiros interesses dos cidadãos.
Nada contra a democracia, que, segundo as palavras de um grande estadista como foi Churchill, é o sistema de governo menos ruim do mundo, porém, fica claro que as eleições nos países democráticos, são, em maior ou menor medida, um circo mediático para escolher shows-man (por não utilizar outra palavra que atente, injustamente, contra a dignidade de certa profissão circense) denominados a sim mesmos como políticos.
O político é um profissional que salvo alguns casos patológicos, caracterizados pelo vírus da ideologia (algo assim como uma versão ateia da religião) ou de megalomania (geralmente milionários com graves problemas de afectividade que querem ser reconhecidos na sociedade), é um cara, que, basicamente, quer se dar bem na vida nas custas dos outros.
Seguindo esta definição pode se dizer que um amigo dos recursos alheios (tecnicamente, um ladrão), é, antes do que nada, um analfabeto político. Quando o tal sujeito percebe como é possível “captar” recursos alheios fazendo uso da velha arte da dialéctica no seu pior sentido (o que no Brasil conhece-se como a arte da enrolação) e descobre como a maior parte da população é crédula e ingénua, a sua atitude muda radicalmente, e passa a se “profissionalizar” na carreira política.
Claro que as coisas no mundo, não são geralmente brancas nem pretas, mas de um tom cinza. Há políticos com certo grau de honestidade, há misturas de corrupção com algo de bom senso, e também há os que se enganam a sim mesmos até que atingem o poder (e isso faz parecer com que são autênticos), estes últimos geralmente enquadrados no tal das patologias já citadas.
Com o poder nas mãos eis que a coisa muda (como numa mágica de Houdini), o discurso se esgota e aquela mirada terna torna-se uma faca para cortar o bolo.
Nos tempos atuais de globalização, ainda temos que entender que mesmo que o presidente de uma nação esteja impregnado da melhor das vontades, o seu poder é bastante limitado, diante das complexas redes de relacionamento na economia mundial.
Nem as instituições multilaterais, criadas após a segunda guerra mundial, como o Banco Mundial e o FMI, dão conta do recado, simplesmente estamos governados por sistemas totalmente ineficientes, incapazes de dar conta dos desafios locais e globais (todos eles inter-relacionados).
Em resumo, há uma maquinaria pública governada por profissionais denominados a sim mesmos, políticos, com competências limitadíssimas sobre os problemas que tratam, centrados nas suas próprias carreiras e bolsos, e subordinados à redes de interesses que apoiam as suas candidaturas. Claro que a alternativa a eles é mais assustadora ainda, são os loucos das ideologias, capazes de matar a sua mãe em nome do partido.
A questão toda gira em torno da eleição destes políticos e do sufrágio universal, da manipulação da midia, e da verticalização do poder para uns poucos leões ter controle sobre a massa de ovelhas.
Eu tenho certeza absoluta que se deputados-as, prefeitos-a, governadores-as, ou presidentes-a dos países fossem escolhidos aleatoriamente entre a população adulta, as chances de ter melhores governos melhorariam de forma exponencial.
No fundo desta ideia, aparentemente mirabolante, subjace a questão de que não é possível construir uma democracia sem o compromisso dos seus cidadãos. Na verdade, eu gostaria de votar, sim, mas numa democracia de verdade, onde o compromisso com o ato de governar, seja ensinado desde cedo, nas escolas.
Atualmente, assistimos na televisão como campanhas governamentais tentam mostrar a população a importância de votar certo e não vender o voto. No entanto, é difícil encontrar alguém minimamente digno para ocupar um cargo público, e quando ele existe, a relação de forças para disputar a eleição é totalmente desfavorável.
No final, na equação mental dos mais desfavorecidos, na qual todos os políticos são farinha do mesmo quintal, se impõe o juízo do retorno mínimo (uma mixaria), o qual mantém a máquina do poder funcionando (leia-se, triturando).
Numa verdadeira democracia o compromisso com as contas públicas de todos os cidadãos, combinado com as redes sociais e a tecnologia da informação, deve fazer com que o político deixe de ser um “profissional” para se transformar em simples cidadão, que, através das redes sociais, evidencie os problemas da comunidade, e mantenha controle sobre uma administração publica transparente, esta sim, profissional, exenta de cargos políticos e comissionados.
Também não acredito em que uma pessoa, um presidente, um ser humano no fim das contas, tenha a capacidade para resolver problemas de envergadura mundial. E uma reunião de presidentes ao mais alto nível como a do G8, é uma reunião de egos, altamente ineficiente em relação aos problemas globais, normalmente com uma visão estreita dos problemas.
O cargo de presidente de uma nação é a substituição popular da figura do Rei (cujo poder emanava de Deus e era despótico demais) por um cargo eleito e limitado no tempo, os parlamentos, sempre foram galinheiros de interesses e continuam como os mesmos mecanismos corruptos e lentos para atender as necessidades da população.
É precissa uma renovação na forma em que os representantes dos cidadãos são escolhidos para exercer cargos públicos de condução dos assuntos públicos, uma nova forma de ver a política como responsabilidade de todos os cidadãos, uma desprofessionalização da política.
Se queremos vencer os desafios globais, fome, mudanças climáticas, devastações, guerra, terrorismo, etc… é preciso mudar a nossa visão de macacos que precisam ser liderados para macacos que assumam o seu compromisso com o grupo.
O poder é uma patologia que a ciência deve estudar, a liderança humana deve ser re-encaminhada para a auto-organização.
Isto é Netmind
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